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segunda-feira, 13 de abril de 2026

1929: Os EUA na repressão europeia das drogas

 

Das quase 3 toneladas de substâncias agarradas em 1927, 89% foram ópio, 7% maconha, 3,6% morfina e 0,4% cocaína, estes representados pela fatia em azul claro no gráfico.

Enquanto os membros do Comitê Consultivo do Ópio voltavam do almoço entre a 3ª e 4ª reunão em Genebra, os americanos abriam seus jornais matutinos de 18 de janeiro de 1929, deparando com notícias como...
O senador Tydings toma medidas para restringir os empréstimos americanos no exterior. (A Alemanha  tomava empréstimos para pagar reparações de guerra.)
O rei iugoslavo dá o primeiro passo para acabar com a ditadura. (O presidente da reunião é da Sérvia, país que exporta ópio.)
US$ 20 milhões em ouro destinados para transferência, presumivelmente para uma conta francesa. (Sacou? Tipo abril de 2026?)
Empréstimos a corretoras aumentam US$ 71 milhões na semana... (Instabilidade do over na bolsa de valores)

As discussões sobre as relações entre o Conselho Central Permanente do Ópio, apoiado pelos EUA e China, e o Comitê Consultivo sobre o Tráfico foram retomadas, e o restante da reunião prosseguiu em sessão pública. Os artigos preliminares elaborados nas sessões de 16 de fevereiro de 1923 incluíam planos para o Conselho Central do Ópio. Os EUA e a China insistiam que esse conselho seria necessário, apesar mesmo de o Conselho Consultivo estar coletando estatísticas em todo o mundo –embora com múltiplas finalidades para essas informações. Um participante suíço interpretou o Artigo 27 da Convenção sino-americana de Genebra como exigindo que o Conselho tomasse todas as medidas necessárias para impedir que tais informações fossem publicadas ou levadas ao conhecimento de especuladores que pudessem usá-las para fins ilícitos--ou driblar concorrentes. Essa exigência suscitava um dilema. Havia críticos dessa insistência dos EUA em restringir uma longa lista de drogas e folhas. A experiência provara que restringir apenas o ópio – que representava 9/10 de todas as drogas, com exceção do álcool e do tabaco – desestabilizava economias regionais inteiras que ou exportavam ou  monopolizavam e tributavam as drogas para a receita. O zelo americano, ofendido por tamanha pusilanimidade venal, levou seus delegados a insistirem que as considerações econômicas fossem menosprezadas, face aos pruridos morais que favoreciam a proibição e regulamentação das drogas. Os receios da China, pouco mais que escombros de guerra, e a indignação moral dos Estados Unidos, cobradores da proibição do álcool, eram o que importava. Ambas as equipes de estatística foram instruídas a prosseguirem. O delegado do Japão poderia apontar objeções à atuação do Comitê Consultivo nas estatísticas, mas isso fazia parte das atribuições dos dois times.

O Sr. Lyall, do Conselho do Ópio procurou apaziguar os ânimos admitindo que o Conselho Central do Ópio era criança, não tinha sequer secretário e pretendia instar os Estados aderentes à convenção de 1925 a adiarem o envio de estatísticas até após a sessão agendada para abril. Por ora, o novo conselho apenas queria observar atentamente as reuniões do Conselho Consultivo da Liga e "ganhar experiência". O sorridente representante de Portugal mostrou-se disposto a mudar de assunto, mas o representante da França voltou a repisar as exigências de sigilo do Artigo 27 da nova Convenção repressionista "de Genebra". Neste ato o francês arriscava chamar atenção aos impactos econômicos e financeiros da repressão--assunto impensável para as delegações dos EUA da China. O senador da Itália e o representante da Grã-Bretanha disseram que nenhum especulador ou concorrente comercial havia lucrado com as estatísticas fornecidas anteriormente ao Comité Consultivo, entidade isenta das restrições do Artigo 27 de Genebra. Só que bastou isso para preocupar o representante holandês que divisava a possibilidade de o Comité Consultivo ser completamente excluído do processo por questões de sigilo de dados. Com isso o presidente considerou o assunto praticamente esgotado, e a reunião voltou à análise dos relatórios dos países. Rapidinho passaram a examinar o relatório da Alemanha. 

O Comitê do Reichstag que estudava o código penal notou um aumento no número de dependentes de drogas relatado pelo Ministério da Saúde da Alemanha nos últimos anos, logo, aprovou uma resolução para limitar a produção de drogas às necessidades médicas nacionais. O representante da Grã-Bretanha perguntou de mansinho se o representante alemão gostaria de elaborar, e o digno – ciente da concorrência na sala – respondeu que compartilharia as informações que se esperava obter em uma futura reunião plenária do Reichstag. O representante britânico quis saber por quê 692 quilos de cocaína bruta haviam sido enviadas da Alemanha para a Rússia, e o mesmo Dr. Kahler, da Alemanha, se ofereceu para investigar. Em relação ao relatório sobre Chosen (atual Coreia), o Sr. Sato pediu um adiamento para que pudesse preparar explicações sobre os planos do governo japonês de monopolizar a produção de morfina naquela ilha. A reunião foi encerrada com uma trégua instável entre os negociadores europeus e os novos insurgentes. Os participantes estavam ansiosos para analisar e negociar os relatórios de controle de drogas dos EUA, Formosa, França, Grã-Bretanha e Hong Kong na reunião de sábado.

Os jornais de Nova York noticiaram que o ex-governador e candidato derrotado à presidência, Al Smith, agora seria banqueiro na diretoria da County Trust Company, juntamente com James J. Riordan. Em Berlim, o magnata do potássio, Arnold Rechberg, fazia lobby por uma aliança entre Alemanha, França e Inglaterra contra os Estados Unidos para resolver questões de empréstimos de guerra e reparações.(link) O administrador americano de bens estrangeiros, Howard Sutherland, responsável por enormes participações acionárias confiscadas da Alemanha durante a guerra, concedeu procurações de voto para 12.400 ações a John D. Rockefeller Jr., que lutava pelo controle da Standard Oil de Indiana.(link) Herbert Hoover voltou da América do Sul, onde teria "conquistado o Cruzeiro do Sul". Um sulista americano  em Nova York, reclamou chocado aos jornais que "duas mulatas" se atreveram a sentar do seu lado no cinema! Essa carta de leitor apareceu enquanto o filme falado multirracial "Gang War" passava nos cinemas. Os leitores nova-iorquinos caíram de pau nesse chato.


Já que o assunto é filme: Rola no Canadá um vídeo do propagandista Michael Moore comparando o Trump ao Hitler. O Moore pra mim é omq comunista, só que é competente fazedor de propaganda. Toda a corrente dele procura dizer que libertário é nazifascista (pois não somos comunas), da mesma forma que os nazifascistas dizem que libertário é comuna (pois não somos nazifascistas). O erro é achar que uma linha horizontal, como moeda de cara ou coroa, possui dimensões suficientes para descrever posições políticas. Nem ponto nem linha consegue descrever área e área não resolve espaço no problema dos 3 partidos. Assisti essa amostra em inglês e gostei, mas não consegui achar nada legendado ou explicado à altura--nem mesmo em alfacinha lisboeta. Presto atenção a tudo o que os democratas ou petistas dizem a respeito dos trumpanzistas ou bolsonaristas e vice-versa--e voto libertário. Então, aí vai o melhor link que achei: 


Como o fascismo se instala... Seria interessante uma dublagem disso, mas tô esperando sentado. 

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terça-feira, 31 de março de 2026

A causa da hiperinflação brasileira

 

Esse foi o Senador John Kerry, vendendo projeto de lei "lotação" Omnibus Drug Bill S2852 de 14 de outubro de 1982, para bedelhar em banco e país alheio pra servo de monroista ficar falando de lado e olhando pro chão. (link)

Repare que esses políticos mal-informados garganteiam acerca de bilhões e bilhões de megadólares sem por um segundo admitir que macaquear em soberania alheia pudesse ter repercussões econômico-financeiras. O vídeo data de 14 de outubro de 1988--um ano após o Crash que deu na bolsa dos EUA e repercutiu na Ásia. 

Na época desse Crash de 1987--essa liquidação de títulos por pessoas que acham que algo ruim está no porvir--delações preparavam terreno para o Maxiprocesso na Italia de 475 mafiosi, incluindo o famoso Tomasso Buscetta, que tentou se ocultar no Brasil, lembra disso? Os recursos negados, 338 desses foram condenados pelo Supremo italiano em 30 de janeiro de 1992. Nesse meio tempo os EUA agarravam bancos e os transformavam em lavanderias de dinheiro controlados por agentes proibicionistas numa espécie de operação de espionagem nos negócios de compra e venda de substâncias.  Pouco demorou pra cismarem de invadir o Panamá--que esse senador Kerry aponta en passant como na alça da mira do executivo, já controlado pelo ex-diretor da CIA e ex-vice do Reagan, George HW Bush. Não demorou. Em 20 de dezembro de 1989 os EUA invadiram Panamá em golpe parecido com esse da Venezuela. Levante a mão quem sabe quando a economia brasileira estourou em hiperinflação... alguém?

A inflação virou crise brasileira em 1986, piorou muito em 1987, acelerou de 1988 a fins de 1989 e voou pelos ares quando o Fernandinho Collor salvou o Brasil dos petistas e abraçou o governo Bush. Após cair dos 80% mensais despencou, mas galgou novamente aos 40% MENSAIS em 1994. O romance A Revolta de Atlas saiu em português em 1987 (como Quem É John Galt?) e a Constituinte de 1988 logo importou leis eleitorais do Nixon para afastar a possibilidade de se formar partido libertário. Só que com a internet, hoje dá para assistir vídeos informativos da revista libertária Reason, com texto que dá pra traduzir no Google.(link) Daí vc tb assiste no Youtube.

Esses assuntos econômicos não são difíceis de entender. Qualquer um vê que inventar pretextos para baixar leis violentas logo provoca estrago em alguns cantos desse mundo. 

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sábado, 28 de março de 2026

Trailer do filme de 1934 sobre os nacionalsocialistas cristãos

Esse filme feito em 1934 pelo neto do Vanderbilt, quando ele parecia sósia do Santos Dumont, ainda está malocado na Bélgica até onde sei.(link) Achei outro trailer na Wikipedia.(link) Mas os 65 minutos do filme original continuam ocultados. 

O mesmo acontece com os discursos do político nazista alemão. A Liga das Nações, aliciada pelas doações do Rockefeller em 1926-27 admitiu novo órgão infiltrado pelos chineses e americanos que pelejava para redefinir todo e qualquer comércio livre como "tráfico" de Belzebu. Pretexto para tudo isso eram artigos das convenções da Haia, do Tratado de Versalhes e da Liga das Nações--que Hitler prometeu abolir. Foi justamente quando esses trabalhos legislativos dos concorrentes--afinal, os países que dominavam o comércio internacional de heroína eram a França, a Alemanha, o Reino Unido e a Suíça--provocaram o desmoronamento da economia alemã, que os industrialistas alemães financiaram o partido nacionalsocialista como a única que oferecia tirar esse mico

Repare que a França exportou muito mais heroína, verdadeiro entorpecente, do que a Alemanha de 1926 a 1931

Sem esses discursos--sobretudo os de 1929 a 1933--não dá para investigar se Hitler entendia dessa ligação ou nutria apenas o preconceito do torcedor cujo time foi derrotado no campeonato de 1919. Alguns dos discursos traduzidos já comprei, mas nessas coletâneas as de 1929 a 1933 não constam. Sei que os cristãos têm muuuita vergonha desse político e do governo que elegeram com ele. E daí? Muitos odeiam a teoria de Darwin e mesmo assim as pessoas conseguem achar e ler as lições que Darwin lecionou.  

Leitura relevante: TÓXICOS NO DIREITO PENAL BRASILEIRO de Edevaldo Alves da Silva. Leitura obrigatória para quem quer entender como o monroísmo e a paranóia do segundo país proibicionista influenciou a redação das leis brasileiras. Editado em 1973 pelo José Bushatsky de São Paulo, esse livro prova na pág 482 que o governo Nixon conseguia adesões a tratados proibicionistas para depois inserir emendas unilateriais "ex-post facto," prática expressamente proibida pela constituição dos EUA. As traduções não mentem.

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quarta-feira, 25 de março de 2026

Desencontros na Liga, 18 de janeiro de 1929

 

Cinema Falado Histórico: Esses direitos de navegar dos países neutros é barômetro da boa-vontade. Sobe com o início de cada guerra!

A quarta reunião de 1929 do Comitê Consultivo sobre o Ópio da Liga das Nações começou na tarde de 18 de janeiro de 1929 com discussões secretas entre o Comitê Consultivo Europeu sobre o Ópio e o Conselho Central do Ópio, organizado pelos EUA. A eloquência combinada não convenceu o representante do Japão de que as duas organizações deveriam unir suas atribuições. Na verdade a Convenção de Genebra de 1925, dominada pelos EUA, não se concentrava no ópio—verdadeiro narcótico viciante da dormideira já abordado em convenções ratificadas. A delegação americana buscava estender à Europa e à Ásia a repressão violenta de não apenas narcóticos derivados, como morfina e afins, e sim repressão irrestrita de outras plantas e extratos, mesmo se reconhecidamente inofensivos comparados com cigarro e bebida.

Afinal, antes de a Lei Seca vigorar, o destilado mais forte nos Estados Unidos tinha 43% de álcool, mas sob a repressão, etanol 200º apareceu em todo canto, deixando admirados os fanáticos da proibição. Logo, a delegação americana—repleta de zelotes repressionistas que caíram fora das reuniões anteriores da Liga das Nações—fez questão de agregar guerras santas contra coca e cocaína, que não causam dependência, e até mesmo contra a maconha, erva nada tóxica, nada viciante e perigosa que ameaça apenas a indústria do cigarro. Dos países latino-americanos, doutrinados segundo Monroe, apenas El Salvador havia ratificado "livremente" o pacto. Suriname e Curaçao foram arrastados pela adesão da Holanda. Dos países semíticos, onde nada obstava a maconha/haxixe mas o álcool era proibido, apenas o Sudão—cobiçado pelos cristãos britânicos—se juntara aos 27 ratificadores do pacto de proibição de 1925.


O quebra-cabeças apontado pelo delegado japonês girava em torno do significado do Artigo 23 do Tratado de Versalhes (e de igual nº no Pacto da Liga das Nações)--mencionado nove vezes durante as discussões de 18 de janeiro de 1929. O parágrafo c do Artigo 23 do Pacto previa que os membros da Liga "confiariam à Liga a supervisão geral dos acordos relativos ao tráfico de ópio e outras drogas nocivas".  Muito embora semelhante redação constava do Protocolo da Convenção do Ópio de 1912--que (na minha interpretação) desencadeou a Primeira Guerra Mundial--apenas cinco assinaturas foram apostas entre 1914 e 1918.

Após a guerra, o Artigo 23 do Tratado de Versalhes, que determinou o fim da guerra, disse: "Sujeito às disposições das convenções internacionais existentes ou que venham a ser acordadas, os membros da Liga das Nações: ... c. confiarão à Liga a supervisão geral da execução de acordos relativos ao tráfico de mulheres e crianças e ao tráfico de ópio e outras drogas perigosas..." Os dois Artigos de nº 23, juntos, autorizavam a Liga a militar pela proibição de tudo aquilo que os delegados americanos conseguissem incluir posteriormente. Tudo isso foi explicitado no Artigo 295 de Versalhes, que impôs a Convenção de Haia tanto aos vencedores quanto aos vencidos. Para complicar ainda mais as coisas, OUTRO Artigo 23, este contido na Convenção de Genebra de 1925, apoiada pelos EUA, dizia: 

"De forma a integralizar as informações da Comissão acerca do destino mundial do ópio em bruto, os governos dos países nos quais o uso do ópio em bruto é temporariamente autorizado deverão, da forma a ser determinada pela Comissão, além das estatísticas previstas no Artigo 22 de Genebra (produção, fabricação, estoques, consumo e quantidades confiscadas de tudo, exceto, possivelmente, álcool e tabaco), enviar anualmente à Comissão, no prazo de três meses após o final do ano, estatísticas tão completas e precisas quanto possível relativas ao ano anterior, indicando:"... Fabricação e consumo de ópio preparado… etc…

O delegado japonês vislumbrou, nessa multiplicidade de Artigos 23, uma oportunidade para transferir as funções de análise estatística do tradicional Comitê Consultivo do Ópio para o novo e autoritário Conselho Central Permanente do Ópio, que os americanos injetaram de improviso no organograma da Liga. As atribuições combinadas de lidar com estatísticas, muitas delas inventadas, com certeza manteria os intrusos do Conselho americano ocupados demais para interferir nos delicado trabalho do Comitê Consultivo do Ópio.  Tal solução seria nitidamente vantajosa para todos 

Considerações financeiras e econômicas também pesavam. A Índia Britânica vendia ópio para a China fazia mais de século. A França controlava grande colônia produtora de ópio no que hoje é o Vietnã. Na mesma época, ela também era a maior exportadora mundial de heroína. Por preocupação cristã com os nativos de suas colônias em Java, os holandeses gradualmente interromperam a produção de ópio em favor do cultivo de café e coca. Esta última logo superou toda a produção da América do Sul. Tradicionalmente hostis ao ópio, os japoneses também reconheceram na coca uma cultura comercial que reduzia os danos, e Formosa, atual Taiwan, tornou-se lar de muitos arbustos de coca. Delegados holandeses e japoneses em eventos da Liga das Nações naturalmente tendiam a desviar a conversa dos males da coca, assim como representantes de nações árabes não se divertiam com sermões ignorantes sobre "viciados" em cânhamo. Com delicadeza e elegância diplomática os europeus evitavam mencionar a proibição ríspida de cerveja, vinho e bebidas alcoólicas nos Estados Unidos. Tal omissão não foi facilitada pelo primeiro filme falado do mundo, "Lights of New York", obra-prima do cinema canastrão que retratava assassinatos de contrabandistas de uísque, policiais pastelão, sequestradores e delatores tendo "caixão encomendado" em cenas mirabolantes. Pia só... 


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segunda-feira, 9 de março de 2026

Empresas farmacêuticas em saia justa, 1929

 

Os EUA exportavam o proibicionismo até trazer colapso e guerra, para então se fazer de desentendidos

As finanças da Liga das Nações preocupavam em 1926. Os países produtores de drogas forçados a aderir estavam com quase 10 milhões de francos-ouro em atraso (aproximadamente USD 2 milhões, com o câmbio de 5 para 1). Fecharam o ano, com apenas USD 280.000. Em março de 1927 estourou o Incidente de Nanquim (link). Em maio houve susto de guerra entre o Reino Unido e a União Soviética, e a seguir a decisão da Suprema Corte tornando tributáveis os lucros auferidos com droga e bebida. A bourse da Alemanha despencou. O franco francês desvalorizou e turistas americanos foram importunados pela polícia querendo ver documentos de identidade. Mas os preços das ações francesas se mantiveram.(link) Agora, janeiro de 1929, veio a oportunidade dos proibicionistas americanos, já infiltrados na Liga com seu "Conselho Permanente do Ópio", exercerem pressão constante para o  Comitê Consultivo do Ópio endossar leis mais severas contra a produção e o comércio globais. (Estou usando o DeepL para facilitar esta versão). 

A lacuna ocorre quando a pressão da Liga deu gravata na indústria farmacêutica alemã em 13 de julho de 1931. A queda começou com o “incidente” de Nanquim, no qual chineses atacaram estrangeiros, especialmente japoneses, que substituíram os alemães na China segundo o Tratado de Versalhes. 

Nesta terceira reunião de 18 de janeiro de 1929, os americanos dobraram as apostas. Frustrados na convenção de 1925, na qual Haia havia recusado a repressão totalitária ilimitada do tipo que agora estava aumentando no hemisfério americano, a China e os EUA queriam uma revanche. Nesse clima hostil o assunto em pauta era quanta pressão o Conselho Central do Ópio poderia exercer sobre o Comitê Consultivo do Ópio para influenciar a Assembleia da Liga a aprovar maior rispidez regulamentar. O senador italiano Cavazzoni — rejeitado em sua tentativa de se infiltrar pessoalmente no Comitê Consultivo do Ópio em 1926 — comparou o Comitê a um lobby de produtores dominado por cartel e propôs quebrar o sigilo da atual reunião. O representante do Japão, Sato Naotake, achou que a atenção da mídia naquele momento nada agregaria. Cavazzoni cobrou votação e perdeu por 6 a 2, apoiado apenas pelo pitoresco representante da China, Wang King-ky.

Cavazzoni deslanchou sermão citando o Artigo 23 do Pacto da Liga das Nações. Vencedores e vencidos da Primeira Guerra Mundial tinham um dever a cumprir, uma guerra santa contra tudo o que os americanos cismassem ser droga perigosa. Afirmou falsamente que o Conselho Central era “uma criação da Liga das Nações”. A seguir admitiu que a referida entidade sino-americana fora criação da convenção de “Genebra” de 1925. O estudioso japonês rebateu, citando a “convenção” de 1925 ouriçada de cláusulas que substituiriam outras da Convenção de Haia de 1912.  Estas cláusulas, afinal, sofreram rápidas mutações até resultarem na guerra. A Carta da Liga, elaborada em parte pelos Estados Unidos, incluía uma referência aberta a futuras “convenções existentes ou a serem acordadas.” Sua proposta proibicionista, espelhada no artigo 23 do Tratado, ainda decretou em seu artigo 282 que a paz importava na rendição às mesmas restrições de Haia sobre drogas que desfecharam a guerra! 

Cumpre agora apresentar este senador italiano em suas próprias palavras, proferidas na 8ª Assembleia da Liga, em dezembro de 1927, à pág. 67:  

Qual fora, na verdade, o objetivo da Liga? A defesa e o progresso da civilização. Só que essencial mesmo seria conhecer o significado da palavra “civilização”, tão frequentemente deturpada. Civilização não significava apenas o bem-estar material. De acordo com as tradições do cristianismo, civilização era sinônimo de moralidade.” ... “Esses males sociais — o vício em drogas, o tráfico de mulheres, o abandono de crianças, a criminalidade infantil, a venda de publicações obscenas — eram pragas que não respeitavam nenhuma fronteira e contra as quais a ação isolada de um único governo não bastavam. Surgiu, portanto, a necessidade de uma ação comum; e era bom estabelecer certos princípios que indicassem o caminho e os limites da atividade social da Liga.”

O deputado federal Hamilton Fish decerto reconheceria em Cavazzoni um correligionário. Não surpreende que os proibicionistas americanos em 1927 decidiram: “Esse político é dos nossos!” 

LeituraLavagem de Dinheiro por Meio de Obras de Arte - Uma Perspectiva Judicial Criminal, por Fausto Martin de Sanctis.(link)  Quando esse desembargador me contratou para a tradução do livro, tive que assumir que sou da oposição, concorrente desse ideário. Em nenhum lugar no livro esse juiz admite que os confiscos e cobranças dessas leis violentas seriam capazes de desprender uma reação em cadeia capaz de criar pânico em bolsas de valores, corridas bancárias, colapso econômico ou guerra--coisas para mim sobremaneira preocupantes. Mas cá está em português elegante uma exposição da premissas e conclusões semelhantes às que motivaram os ocidentais a legislarem da forma que os republicanos americanos, os participantes da Haia, os Aliados da Primeira Guerra, os integrantes da Liga das Nações, aliados da Segunda Guerra, membros da ONU, expedicionários da guerra na Coréia e do Vietnã a agirem da forma que agiram. O autor gostou da minha tradução, pois no linguajar e conhecimento do assunto somos compatíveis. A versão em inglês, também na Amazon, tem título Money Laundering Through Art--a Criminal Justice Perspective. (link

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