quinta-feira, 14 de maio de 2026

França x EUA: Guerra da Codeína de 1927

  

 22 anos os EUA colaboravam com a China para reprimir tudo quanto é droga. Quando a França exportou uma remessa de xarope anti-tosse contendo codeína que a alfândega agarrou em Nova York, seu governo quis dar o troco.

Do nada, surgiu a notícia de 9 de setembro de que a França havia imposto uma tarifa de 400% sobre todo um leque de exportações americanas que já estavam a caminho da França. A notícia da apreensão do carregamento de xarope para tosse vazou num pequeno jornal(link) enquanto a Liga das Nações realizava uma de suas convenções antidrogas em Genebra, na Suíça. Infiltrados americanos estavam pressionando para que controles internacionais explícitos de exportação e importação fossem aplicados à codeína — um produto derivado da morfina, semelhante à heroína, para o qual os Estados Unidos passaram a migrar após proibirem a fabricação da heroína original. Por causa dessas restrições, muitas empresas farmacêuticas europeias haviam optado por produzir codeína, devido ao tratamento regulatório mais permissivo que esse novo derivado da morfina recebia.


Autoridades francesas negaram qualquer ligação entre a recusa dos EUA em conceder à França um empréstimo de refinanciamento — refinanciamento do pagamento francês de empréstimos contraídos para financiar a Primeira Guerra Mundial — e o súbito aumento das tarifas alfandegárias francesas. Autoridades britânicas também tentavam, desde o armistício, condicionar o pagamento de empréstimos americanos ao pagamento, pela Alemanha, das reparações de guerra à Grã-Bretanha, conforme estipulado no Tratado de Versalhes, mas o presidente Coolidge rejeitou o argumento. Como vimos, as empresas farmacêuticas europeias vendiam, há cerca de um século, medicamentos em todo o mundo e ressentiam-se da interferência belicosa dos Estados Unidos no comércio honesto. Mas os republicanos — tradicionalmente impopulares entre os agricultores americanos — conquistaram as Filipinas, uma porta aberta para o envio de cereais à China. A China, desesperada para excluir drogas estrangeiras de um mercado que seu novo governo não tinha como senão monopolizar, buscou, com a ajuda dos Estados Unidos, proteger sua indústria nacional de ópio da concorrência estrangeira. A França e outras nações também se irritaram com as barreiras comerciais "sanitárias" dos Estados Unidos. Até mesmo o Panamá, incomodado com o fato de a Zona do Canal ter se transformado em um enorme esquema de busca, apreensão e confisco, questionou se aquilo constituía soberania legítima. Mas os EUA tinham assuntos mais importantes para tratar e agentes já posicionados para influenciar na Liga das Nações.

Agente bastante incomum era Rockefeller Jr., cotista de um vasto império de açúcar de milho glicosado que fornecia a matéria-prima para mais de 95% de todo o álcool consumido nos Estados Unidos. A usina de açúcar Argo, perto de Cicero, é até hoje a maior fábrica de alimentos do mundo. Ao sul de Chicago, já na divisa com o estado de Indiana, a usina American Maize abastecia a região que outrora fora enriquecida pela destilaria Hammond, em Indiana. Agentes federais agora cercavam essas e outras usinas de açúcar glicosado e interrogavam Ralph Capone, irmão de Al Capone, sobre sua declaração de imposto de renda. Rockefeller calculou que seria prudente buscar o favor do governo doando alguns milhões de dólares para a Liga das Nações, que enfrentava dificuldades financeiras — coisa que Andrew Carnegie vinha fazendo há décadas. (link)

A outra ponta do cerco que o Comandante-mor e presidente Coolidge estava fechando em torno da França seria a primeira conferência da Legião Americana fora dos EUA, que seria realizada em Paris. Enquanto Genebra se enchia de ativistas da proibição que se apresentavam como pacifistas, Paris começava a ficar superlotada com a chegada dos mesmos soldados e oficiais que, nove anos antes, haviam imobilizado os alemães em suas trincheiras com bombardeios que incluíam lewisita, cloro, gás mostarda e ogivas explosivas. As autoridades francesas escolheram o momento errado para pressionar o Tio Sam a deixar a codeína passar pela alfândega. Nove dias depois da "guerra comercial tarifária" aparecer nas manchetes, Paris se via cercada e ocupada por veteranos embriagados, ansiosos para apoiar o Presidente Coolidge e fazer a América receber novamente! As manchetes berravam: DISCURSOS INSPIRADORES DE FOCH E PERSHING NA SESSÃO DA LEGIÃO — O SALÃO DE CONVENÇÕES ECOA COM APLAUSOS AOS DOIS LÍDERES MILITARES, MARECHAL FRANCÊS PRESTA HOMENAGEM À DEDICAÇÃO DO GENERAL AMERICANO À CAUSA COMUM DOS ALIADOS — (link) Outras manchetes relatavam fuzileiros navais eliminando a resistência nicaraguense; outras ainda, situações aterrorizantes em Xangai, um importante mercado internacional de drogas. (link)

Uma manchete dizia: EUA RESPONDE À NOTA TARIFÁRIA — Paris, 20 de setembro — A resposta do governo americano às representações feitas pela Embaixada dos Estados Unidos sobre as novas tarifas francesas foi recebida hoje na Embaixada... (link) Nos bastidores do Departamento de Estado dos EUA, muita coisa acontecia. (link) (link)

Boa leitura: O livro "The Man Who Solved the Market" O Homem que Decifrou o Mercado na versão, de Gregory Zuckerman (link), é de encomenda para o interessado no mecanismo pelo qual as orgias de confisco de bens, motivadas por proibicionismo religioso, destroem uma economia e ainda fabrica mentiras para ocultar o que realmente aconteceu — como em 1907, 1929, 1931, 1987 e 2008. Essa biografia, cativa quem já foi reprovado em equações diferenciais parciais, como o personagem principal, Jim Simons, pioneiro do trading quantitativo. Para ajudar a entender o método, considere Bernard Baruch, que lucrou observando, em 1891, que sempre que um fanfarrão fazia apostas exorbitantes na roleta dum bar, perdia. Baruch concluiu que a roleta estaria viciada e adotou fazer pequenas apostas opostas às do faroleiro. Se o trouxa apostasse no vermelho, Bernie apostava no preto; se no ímpar, no par. A estratégia de Baruch rendeu salário estável até que o igualmente perspicaz dono do bar o convidou a nunca mais voltar. Simon tinha diante de si os interrogatórios de clientes bancários do programa "Conheça Seu Cliente" de 1986, a Lei Omnibus sobre Drogas de 1988 (link), a pilhagem proibicionista sob pretexto da lei na década de 1990, confiscando até bancos inteiros(link), a Lei de Estratégia de Lavagem de Dinheiro e Crimes Financeiros de 1998, assinada como Lei Pública 105-310 em 30 de outubro de 1998, enquanto os bancos na América Latina afundavam em hiperinflação e colapso. Após uma década disso, até mesmo os políticos, no verão de 1999, estranhavam(link). Depois de religiosos amigos da lei seca derrubarem as torres gêmeas em Nova York, Bush dobrou a aposta, inventando "narcoterrorismo" em 2003 como pretexto para confiscar mais residências e contas bancárias (link). Essa prática foi logo adotada por governos saqueadores em todo o mundo. Mas o golpe fatal para os mercados de derivativos lastreados em hipotecas veio quando imagens térmicas e helicópteros revelaram a existência de plantações de maconha e bens e ativos afins passíveis de confisco (link) (link) (link). Analisando os dados coletados muito antes dos tremores que motivaram o Relatório Kerry, a campanha "Diga Não às Drogas" e a cruzada "América Livre das Drogas", Simons teria que ser um matemático míope para não perceber que o saque governamental sob pretexto do proibicionismo eugênico andava destruindo a economia. O mesmo ocorreu em 1907, 1914, 1929, 1970, 1974, 1980, 1982 e 1990.(link) O Fundo Medallion de USD 5,2 bilhões da Renaissance Technologies - foi lançado em 1988 após a Lei de Repressão, Educação e Controle de Drogas de 1986 - e se encaixou perfeitamente na Crise de Reagan de 1987. Este fundo pioneiro de Big Data dobrou seus lucros em 2006, depois faturou USD 7,1 bilhões em 2007 e USD 7,9 bilhões em 2008. Esses fatos indicam que Simons entendeu o que estava acontecendo — mesmo enquanto os incautos se esforçavam para não acreditar que os derivativos lastreados em hipotecas derretiam feito bruxa molhada no conto do Mago de Oz. (link) Espertos como os do conto A Roupa Nova do Rei (link) ainda arrotam bobagens para "explicar" a Crise de 2008 como TUDO MENOS o que Ayn Rand explicou no seu livro de 1966, Capitalismo: O Ideal Desconhecido: "Uma crise nacional, como a que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1930, não teria sido possível numa sociedade totalmente livre. Ela só foi possível pela intervenção do governo na economia—"(link) No entanto, como a criança da história, que viu e disse "Mas o rei está pelado", a hipótese de Ayn Rand se encaixa nos fatos. Se Simons percebeu tal jogada, teve bom senso o suficiente para não mostrar as cartas depois de ganhar as fichas.


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 Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.

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