sexta-feira, 18 de setembro de 2026

1929--8ª reunião da Comissão do ópio da Liga das Nações

 

Essa droga nada irritante à garganta não constava da pauta oficial senão como cultura subsidiada pelos governos para substituir o plantio da dormideira ou da coca. As jovens apontadas como garotas-propaganda, que fumavam o produto para manter a silhueta esbelta, logo morreram de hipertensão pulmonar, cardiopatia reumática ou problemas nas amígdalas (link). Não perca os musicais... (link)

Terça-feira, 22 de janeiro de 1929, Genebra, Suíça — O representante suíço Carrière apontou que a produção de morfina na Suíça havia caído 53% em 1927 em relação a 1926, e da heroína, 6% no mesmo período. Os números suíços referentes à cocaína eram "muito baixos e provavelmente diminuiriam ainda mais". O fiscal dos EUA junto ao Conselho Permanente irritou-se com o relatório dos Países Baixos — que, assim como o relatório suíço, começou sendo sigiloso—, mas foi assegurado de que o motivo da sua apresentação resumida fora o atraso, e não o sigilo. Os Países Baixos não forneceram praticamente nenhuma informação, e os fiscais do Conselho Central Permanente viram-se reduzidos a perguntar por que apenas 17 quilos de morfina haviam sido produzidos — sem, contudo, obter qualquer explicação.

Chegou a vez de Chosen — hoje chamada de Coreia — cair sob o escrutínio. Naturalmente, o Sr. Sato, do Japão, respondeu em nome desse território sob tutela de seu Estado político e logo descartou as indagações sobre a Taisho Drug Manufacturing Co., explicando que a empresa fora obrigada a suspender as operações e estaria respondendo à Suprema Corte. Isso encerrou qualquer possibilidade de discutir detalhes específicos; assim, o porta-voz e tutor da Coreia mudou habilmente de assunto para um plano admirável de monopólio estatal da morfina, nos moldes daqueles praticados por nações europeias com suas populações coloniais. Em toda a Coreia, segundo informaram os especialistas imparciais, havia apenas 5.000 dependentes — todos, ou quase todos, viciados em morfina. Esses "morfinômanos" recebiam tratamento em regime de rodízio, e a expectativa era de que tudo isso ficaria extinto em um prazo de dez anos. Sua retórica era tão fluida que ninguém contestou a impressão transmitida de que a coca e a cocaína estariam totalmente desconhecidas em uma ilha nada distante de Java e Sumatra — onde o ópio havia sido erradicado e a produção de coca, por quase duas décadas, deixara no chinelo a da América do Sul.

O italiano nervosinho não dectou erros na narrativa de Sato, mas continuava duvidando de que o racionamento de drogas por meio de um monopólio fosse coisa positiva. Ele levantou o habitual fantasma da vulnerabilidade a indivíduos que "se enriqueciam com esse mal que afligia a humanidade" mas logo maneirou, dizendo estar confiante de que essa "parcela vergonhosa da humanidade" seria mantida à margem das operações. A discussão abordou os métodos de cura japoneses. Durando de 6 a 22 dias, pareciam mais céleres do que o tratamento inglês para dependentes de opiáceos. Após o Sato expor a produção de morfina prevista para a Coreia — considerada insignificante —, um delegado suíço, que insistia (na qualidade de médico) que a codeína não causava dependência, tentou extrair detalhes clínicos mencionando que a cocaína, utilizada como cura para o vício em morfina, apenas transformara morfinômanos em "dependentes" de cocaína — figura essa que os japoneses sabiam perfeitamente não existia. Logo perdeu toda a credibilidade ao afirmar que o alcoolismo e a dependência eram fenômenos psicológicos, defendendo tanto a redução gradual quanto a interrupção abrupta como "o único tratamento" que apresentara "resultados positivos". O delegado de Portugal, um "ex-professor de medicina", manifestou sua concordância, e os participantes, ao que tudo indica, conseguiram manter a cara limpa.

Em seguida, examinou-se a situação da Grécia, fronteiriça com a Turquia, a Bulgária e a Sérvia — todas produtoras de ópio. Os gregos detinham um lucrativo monopólio desta seiva e compartilhavam uma de suas "zonas francas" com a Sérvia. Quando se constatou que os números de importação da Grécia e de exportação da Sérvia coincidiam perfeitamente, ficou claro que não adiantava tentar pegá-los em contradições; o relatório sobre a Pérsia foi prontamente aberto.

A Pérsia, exportadora de ópio, boicotou o tabaco em 1907, ano em que os EUA se apressavam em aprovar leis estaduais e federais para restringir todas as demais drogas e bebidas. Incapaz de pagar seus gendarmes, o governo persa elaborou uma constituição e contratou um banqueiro americano para desenvolver ali um sistema fiscal e bancário — incluindo tarifas sobre entorpecentes — e, por isso mesmo, foi invadida pela Rússia cristã em 1911, ano da guerra civil chinesa. Pressionada, a Pérsia assinou a Convenção do Ópio de Haia "com ressalvas" em 1912. A ocupação britânica no pós-guerra apenas intensificou o desprezo persa pelos intrometidos euro-americanos e a admiração pelo Japão. A Pérsia, a Turquia e a Rússia Soviética ainda resistiam à adesão à Liga das Nações; contudo, a Pérsia figurava como membro do Conselho. Tanto os fiscais do Conselho Permanente quanto os delegados europeus ligados ao refino de drogas leram, com pavor evidente, sobre os planos da Pérsia de instalar sua própria fábrica de morfina. As fábricas existentes já refinavam muito mais morfina do que os proibicionistas americanos consideravam necessário para as necessidades globais "legítimas". O representante do Japão desviou o foco da discussão ao mencionar planos dos turcomenos de cultivar papoulas a leste do Mar Cáspio, enquanto o representante da Grã-Bretanha farfalhava propostas e memorandos antigos e acrescentava críticas indignadas--mas acabou sendo acalmado pela opinião da Secretária de que tais planos dificilmente sairiam do papel.

A reunião seguinte teria início na tarde de terça-feira, 22 de janeiro.

Leitura: Atas das duas Convenções do Ópio de Genebra (e de tudo o mais, exceto cigarros). Para minha surpresa, o projeto se desdobrou em 38 reuniões primárias – três vezes isso em reuniões auxiliares – e durou quase 70 dias, cobrindo 500 páginas em letras miúdas e tamanho ofício. Os faniquitos de alguns dos conferencistas mais histéricos tornaram pitorescos os procedimentos, e os resultados -- inclusive o linchamento fanático do cânhamo de maconha -- repercutiram nessas reuniões de 1929 que estamos revisitando. Estas reuniões de 1929 revelarão os seus próprios chiliques e e faniquitos com o correr do tempo, isso eu garanto. Encontrei estas informações em uma universidade na Índia. Os registros da Liga na Genebra são mais embaçados e a sua inclusão da versão francesa aumenta o peso de cada arquivo. 

Acabei comprando uma selfie light da Evershop na Amazon e retomei a fotografia dos últimos seis meses do Peking Daily News de 1912. O equipamento quase exige o uso de uma alavanca para encaixar o celular na presilha, que é muito apertada, e tive que usar uma lupa de relojoeiro para ler as instruções do acionador Bluetooth, mas funciona sem a vibração do meu dedo no celular suspenso. Em uma foto de teste, a primeira coisa que notei foi um anúncio de cigarros egípcios de julho de 1912. Sua importância ficará mais clara quando examinarmos os registros da Convenção de Genebra de 1924-25.

Alguns fatos interessantes sobre a fabricação industrializada dos cigarros: (link)

Instruções em português para preencher o formulário de asilo i589, um dólar no formato Kindle que você lê no celular (link



 Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.

ALeiSeca0619

Para melhorar o seu inglês, nada como a minha polêmica tradução de O Presidente Negro (O Choque das Raças) de Monteiro Lobato: America's Black President 2228. Na Amazon (link)

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