sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Preocupações conspiratórias na 12ª reunião do Comitê do Ópio de 1929

 

Menções de contrabando em espanhol na mídia da época

Na manhã de 24 de janeiro de 1929, o Comitê Consultivo sobre o Ópio da Liga das Nações em Genebra retomou os seus trabalhos preocupantes. Abordaram o item 307: "Perigo de deturpação na imprensa a respeito da venda de drogas: declaração do representante suíço". Em pauta estava um artigo publicado no Daily Mail, de Lord Rothermere.(link) Esse jornal — detestado por George Orwell — insinuara dois dias antes, uma ligação entre o tráfico ilícito e uma empresa suíça com filial no sul da Alemanha. Para tanto, o Mail forjou "números formidáveis ​​e sensacionalistas", levando os leitores a imaginar dez toneladas de morfina sendo enviadas irregularmente para a Grécia com conivência suíça, e pantopon sendo comercializado em quantidades exorbitantes. O Dr. Carrière corrigiu os cálculos das quantidades — que apresentavam um erro de quatro ordens de grandeza — e esclareceu que, em 1927, não houve nenhuma exportação de morfina suíça para a Grécia; logo, as alegações do Daily Mail estavam "longe de representar a situação com precisão". O médico fez questão de que os fatos constassem em registro, para evitar que acusaçõe caluniosas dessem origem a "suposições fantásticas". Outros compartilhavam a sua preocupação com supostas conspirações contra os nobres esforços da Liga, que visavam redirecionar, de forma coercitiva, a atividade humana para caminhos mais altruístas.  

Em 1928, promotores, jornais e repórteres judiciais americanos utilizavam, praticamente toda semana — e com ainda mais frequência desde então —, o termo "conspiração" para descrever as atividades que giravam em torno da legislação suntuária. A maior parte dessas histórias envolvia congressistas, autoridades federais e estaduais, juízes e policiais municipais que se organizavam em grupos para lucrar com as diferenças de preços introduzidas no comércio pela violência das leis proibicionistas. Contudo, casos recentes revelaram infratores que utilizavam distintivos falsos para se passar por agentes de combate a entorpecentes e até mesmo por membros da Guarda Costeira. O assassinato de Arnold Rothstein, ocorrido durante o período eleitoral em Nova York, desencadeou uma série de revelações escusas e perturbadoras, além de provocar quedas nos mercados. Desde o início de 1925, a cobertura jornalística vinha sendo motivo de preocupação; na ocasião, o Conselho Central foi incumbido — por meio do Artigo 27 — de garantir que as informações recebidas sobre a circulação de drogas "não fossem tornadas públicas de maneira a facilitar as operações de especuladores ou prejudicar o comércio legítimo de qualquer Parte Contratante". Essa preocupação tornou-se urgente, chegando a ser sinistra, durante a análise, realizada naquele dia, das apreensões de drogas na Itália (Documentos O.C.773 (a) a (g)).

Medicamentos com rótulos suíços e alemães foram interceptados na Itália; um senador italiano, membro do comitê, vangloriou-se de que a fiscalização no país era rigorosa e as substâncias, de origem estrangeira. Estimulantes da marca Merck foram mencionados, o que levou o representante alemão — como manda o figurino — a insistir que os rótulos fossem examinados para ver se havia contrafação nisso. Outro trecho do relato italiano despertaria grande interesse entre os proibicionistas americanos nos Estados Unidos e seus correligionários. Por volta de 1906, ondas de pânico moral — envolvendo tanto a China quanto os EUA — resultaram no caos econômico e na instabilidade política que os governos da região previam caso a produção e o comércio do ópio fossem subitamente reprimidos. O empobrecimento e colapso econômico repentino — decorrentes do bloqueio chinês a todas as importações de opiáceos, somados a proibições semelhantes impostas pelos EUA — desencadearam violência extrema entre grupos tribais e religiosos, afetando de forma particularmente brutal as mulheres e crianças, as mais vulneráveis ​​daquelas populações. Os massacres de armênios iniciados em 1905 ano marcado por boicotes chineses,(link), e as Guerras Balcânicas, ocorridas após a Revolução Chinesa, foram o oposto daquilo que a União Cristã de Mulheres pela Abstinência prometeu: que proibir o álcool e as drogas protegeria mulheres e crianças, pois os maridos não torrariam a renda familiar em bares. O desmentimento dessa crença — e o consequente receio de que as proibições do comércio enquanto veículos da pobreza seriam apontadas como as verdadeiras responsáveis ​​— gerou forte demanda por uma explicação na Seção Social da Liga das Nações -- explicação que isentasse os EUA e a China de terem desencadeado esse pavoroso descarrilhamento. Esse relatório italiano, com seu tom estridente, veio a calhar. 

O representante da Grã-Bretanha frisou os trechos que apontariam conexões ligando o tráfico de drogas no submundo à prostituição e o tráfico de "escravas brancas" — algo distinto dos cigarros que Henry Ford denunciou e procurou proibir, classificando-os como "escravizadores branquinhos".(link) A página 2 do documento O.C.773(d) dava a entender que a cocaína era utilizada para "arruinar mocinhas" em bordéis italianos; por isso, sugeriu-se que dar destaque a essas histórias "seria de grande proveito". A secretária, Rachel Crowdy(link) — que recebeu o título de "Dama" pelo seu trabalho na guerra —, deixou de lado a neutralidade para agradecer ao senador Cavazzoni e convencê-lo a permitir a divulgação da parte de seu relatório ao Comitê sobre o Tráfico de Mulheres e Crianças e ao Comitê de Bem-Estar Infantil. Certamente, isso serviria para isentar o zelo proibicionista de toda e qualquer responsabilidade pelos genocídios armênios e escaladas de violência que, invariavelmente, seguiam-se a cada uma de suas campanhas nas fronteiras do cristianismo com muçulmanos.

A Guerra Mundial trouxe lucros tão imensos para os bancos, exportadores e a indústria bélica dos EUA que compensaram — ou, pelo menos, adiaram — os custos de sobrecarregar a economia americana com as emendas constitucionais que instituíram o Imposto de Renda e a Lei Seca, somadas a uma avalanche de outras proibições de substâncias motivadas sobremaneira pelo boicote chinês. Quando a Lei Seca do Volstead) entrou em vigor em 1920, a indústria americana perdeu 507 destilarias — que produziam 286 milhões de galões de bebidas destiladas —, 1217 cervejarias e 175 mil bares; contudo, o país exigia, ao mesmo tempo, o reembolso de 21 bilhões e 751 milhões de dólares referentes a dívidas de guerra contraídas pelas nações europeias. Mas existia um outro elemento naquele relatório italiano. Ali se mencionava "uma empresa chamada Ferrari" e o desenovelar desse fio acabou por aumentar o constrangimento, em fins de junho de 1929, além do ponto crítico que culminaria no Crash (o famigerado craque da bolsa) e na Grande Depressão.(link)

Os jornais disponíveis na Genebra (além do Daily Mail) naquele dia traziam notícias desse cunho:
23 de janeiro de 1929: Gladstone é indiciado por apropriação indébita. (NYT, 23/jan/29, 4:7) Advogados especializados em falências fugindo com bens, a exemplo dos casos Steinhardt/Pinner... 

23 de janeiro de 1929: The Montreal Gazette, pág. 1. IMPROVÁVEL QUE A CONFERÊNCIA TRAGA RESULTADOS — Não se espera que Ottawa aprove legislação para auxiliar na aplicação da Lei Volstead — Ottawa, 23 de janeiro... (link)
Na mesma página: SOLICITADO AUMENTO DE IMPOSTO SOBRE AÇÚCAR DE BORDO... /todo o xarope canadense passou a ser usado na destilação/
Pág. 5=7. JAPÃO RESTRINGE NARCÓTICOS — Torna a produção na Coreia um monopólio estatal — Genebra, 22 de janeiro — O Japão notificou hoje a Liga das Nações de que a fabricação e a distribuição de narcóticos na Coreia foram retiradas das mãos de empresas privadas. (link) /"narcótico" é termo pejorativo sem definição científica/

23 de janeiro de 1929: Berkeley Daily Gazette, pág. 1. Planejado o uso de verbas para realizar um teste rigoroso da "Lei Seca" — por Cecil Owen —… (link)
Declara-se culpado de acusações de contrabando — SÃO FRANCISCO — 23 de janeiro — William L. Rosa, ex-funcionário do Tribunal Federal de Honolulu, declarou-se culpado hoje, perante o juiz federal Kerrigan, de violação da Lei antinarcóticos de Harrison (Harrison Narcotic Act). Rosa e três chineses foram denunciados ontem por contrabando de ópio de São Francisco para Honolulu… (link)

PITTSBURGH Post-Gazette, pág. 1. AGENTES FEDERAIS DA LEI SECA REALIZAM OPERAÇÕES NO DISTRITO DE FAULKNER — VINTE EQUIPES AGEM SIMULTANEAMENTE NO NORTE DA CIDADE — 32 PESSOAS SÃO PRESAS — Cerca de 20 supostos antros de venda ilegal de bebidas alcoólicas fechados em operações que envolveram 100 agentes — 100 agentes federais encarregados de fazer cumprir a Lei Seca realizaram uma varredura hoje na zona norte da cidade…(link)
NOTÍCIAS INTERNACIONAIS — JAPÃO NACIONALIZA INDÚSTRIA DE ENTORPECENTES — Governo retira a fabricação de narcóticos das mãos de empresas privadas — Genebra, 22 de janeiro — O Japão notificou hoje a Liga das Nações de que a fabricação e a distribuição de narcóticos na Coreia foram retiradas das mãos de empresas privadas e transformadas em um monopólio estatal.(link)
DISPUTA INTERNA ENTRE DEFENSORES DA LEI SECA PARTE PARA CONFLITO ABERTO — Bispos desafiam a diretoria da Liga Anti-Bares — McBride enfrenta resistência — Proposta de reestruturação sugere a entrada de Dinwiddie como diretor de legislação — WASHINGTON, 22 de janeiro — F. Scott McBride…(link)

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Direito ao voto para expatriados: a organização American Citizens Abroad (link) me enviou informações úteis sobre como cidadão americano pode se registrar para votar, por meio do "Federal Post Card Application" (formulário federal de solicitação de voto por correspondência) — basta preenchê-lo e envir para colocar em andamento. Trata-se de um formulário de solicitação de voto à distância, acompanhado de instruções, que pode ser obtido no site VoteFromAbroad.org (link).


Instruções em português para preencher o formulário de asilo i589, um dólar no formato Kindle que você lê no celular (link) 



 Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.

ALeiSeca0619

Para melhorar o seu inglês, nada como a minha polêmica tradução de O Presidente Negro (O Choque das Raças) de Monteiro Lobato: America's Black President 2228. Na Amazon (link)

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