terça-feira, 21 de abril de 2026

Relatório antidroga dos EUA para as nações, 1929

 

Das quase 3 toneladas de interditadas mundialmente em 1927,
89% foram ópio, 7% maconha, 3,6% morfina e 0,4% cocaína

Enquanto os nova-iorquinos dormiam na madrugada de 19 de janeiro de 1929, o Comitê Consultivo do Ópio se reunia em Genebra, na Suíça, para a 5ª reunião da sua 12ª sessão, a fim de examinar os relatórios sobre o comércio de drogas referentes ao ano de 1927. O atraso se devia principalmente à protelação de nações mais fracas, curiosas para descobrir que tipo de coerção estava sendo planejada contra elas, enquanto ocultavam detalhes das suas próprias transações. O quarto relatório da pauta seria o dos Estados Unidos, só que o presidente do Comitê lembrou que o resumo desse relatório havia sido considerado no final da sessão anterior – ou seja, em 1928. Em nome dos Estados Unidos, o Sr. John Kenneth Caldwell se ofereceu para distribuir cópias do relatório de 1928 dentro de dois ou três dias. O presidente, com diplomacia, desconversou e passou a tratar de Formosa – um protetorado do Japão na época, que hoje corresponde a Taiwan. O Sr. Sato explicou que este relatório de 1927 foi o primeiro a divulgar dados sobre folhas de coca cultivadas no Japão e pasta de cocaína bruta, despertando grande interesse entre os observadores americanos. Mas vale examinar aquele relatório americano de 1927, pois fora EXTREMAMENTE informativo...

O relatório americano de 1927 na largada badalou uma lei de 22 de junho de 1927 que regulamentava os "narcóticos" nas liberais Ilhas Virgens, e outra de 3 de março de 1927 adicionando mais um órgão de proibição — desta vez no Departamento do Tesouro. O relatório elogiou o Estado de Nova York pela sua lei antidrogas de 5 de abril de 1927, obedecendo a Convenção de Haia sobre o Ópio — convenção essa que ninguém quis admitir teria sido o casus belli da Primeira Guerra Mundial. Transbordando orgulho, o relatório versava sobre as novas regulamentações nos formulários de importação dos EUA, a serem implementadas nos portos estrangeiros a partir de junho. A eficácia dessas regulamentações impeditivas das exportações para os EUA transparece numa reportagem de jornal mostrando que as importações da Europa em julho de 1927 foram 90% menores que as de julho do ano anterior.(link) Logo, em 1º de setembro de 1927, a França, exportadora de heroína, impôs tarifas "proibitivas" às exportações americanas em represália.(link)

Nos EUA sobrava dinheiro para torrar com agentes e fiscais. As verbas destinadas à repressão somaram 1,3 milhão de dólares-ouro, cada um valendo 1,67 gramas de ouro — mais de duas toneladas métricas de ouro a preços de 2026 e equivalentes hoje a USD 336 milhões. Cumpre abordar o tamanho do estrago financeiro que essa verba poderia causar às finanças globais. Segundo o relatório dos EUA, seria quirera, pois diversos fatores, apontados no relatório integral, "juntos tornam praticamente impossível a tarefa dos fiscais americanos, limitados pelas leis vigentes, de prevenir a entrada de entorpecentes no país". Aos olhos europeus, stupéfiants ou entorpecentes significaria nos EUA tudo aquilo que o governo não goste, incluindo cerveja! Veja o clima nos jornais que circulavam ali enquanto a Liga das Nações se reunia em setembro de 1927:
O administrador da Lei Seca de Nova Jersey, Hanlon, sobre a remoção de drogas confiscadas de um depósito do governo. NY Times, 21 de agosto de 1927, p5c4.
Agentes da lei seca tentam busca sem mandado para fechar cervejaria.(link)
Oficial americano baleado em Dresden, na Alemanha.(link)

A America proibicionista emitia em 1926 alertas de que seus "esforços para controlar o consumo de drogas perigosas nos territórios sob sua jurisdição" (inclusive as Ilhas Filipinas, Samoa, Guam, Wake e Havaí) "vinham sendo anulados de forma alarmante pelas atividades de contrabandistas que pareciam não ter dificuldade em adquirir grandes quantidades de drogas no intuito de introduzi-las secretamente nos Estados Unidos". Daí, a rasteira: "não havia como melhorar a situação sem controles, nos países que não os Estados Unidos, sobre a fabricação e exportação de entorpecentes, limitando a sua venda às importadoras autorizadas..." Problema de quem isso? Rezava o relatório, com detalhes, que "ocorreram diversas e recentes grandes apreensões de drogas, presumivelmente de origem europeia". Ostentando a rigidez dos EUA na aplicação proibicionista d monroísmo aos países vizinhos economicamente fragilizados, NENHUM deles extraía morfina do ópio, e apenas dois países sul-americanos fabricavam cocaína a partir da pasta ou das folhas de coca.

A ameaça velada veio da seguinte forma: 93,7% dos casos julgados resultaram em condenações que, somadas, totalizaram 7088 anos de prisão para os sobreviventes. As multas e acertos de "impostos" de 1926 e 1927 somaram 798.000 dólares-ouro, equivalentes a 3.990.125 francos suíços de ouro. As doações da família Rockefeller para a Liga em 1926 totalizaram quase 99.000 francos, e os gastos com as sessões do Comitê Consultivo do Ópio, inclusive serviços da gráfica, comunicações e telegramas foram de apenas 28.500 francos de ouro. A receita das penalidades americanas, por si só, vultava 70 vezes maior que o custo anual para a Liga das atividades do Comitê Consultivo do Ópio — incluindo a maquiagem dos discursos hipócritas sobre o tráfico de mulheres e crianças! No exercício de 1926, a conta bancária da Liga mostrava um saldo de 1.201.189,65 francos de ouro, ou pouco mais de 240.000 dólares de ouro. De 1920 a 1926, a Liga das Nações não conseguiu arrecadar USD 1,6 milhão em contribuições dos países inadimplentes cujas economias haviam sido devastadas ou tolhidas pela guerra e pelas leis repressivas — isso segundo o Diário Oficial da Liga. A China devia mais de um milhão de dólares e o Peru outros USD 281 mil — isso ANTES de as novas regulamentações abstencionistas americanas derrubarem 90% das exportações europeias para os Estados Unidos. Nessa crise galopante enfraquecendo a Europa, surpreende que os americanos foram logo se infiltrando e assumindo controle da Liga das Nações?  

As conclusões do relatório americano botavam dedo nas feridas que afetavam pelo menos sete países e colônias: o rendimento de cocaína da plantas de Java eram quase o dobro daquele obtido das folhas peruanas. Botânicos holandeses criaram arbustos superiores em Java, logo a coca cultivada nas possessões japonesas vizinhas seria duas vezes mais forte do que as cepas sul-americanas. Mais preocupante ainda, o Departamento do Tesouro dos EUA enviou, em setembro de 1927, agentes e espiões para estabelecer contato com agentes e espiões europeus a fim de trocar informações. O Conselho Federal de Controle de Narcóticos era obrigado a levar em conta a possibilidade de condições políticas instáveis ​​nos países produtores de ópio bruto interferirem nos embarques para os Estados Unidos. Tais fatores pesariam em qualquer emergência nacional que pudesse causar um aumento súbito na demanda por drogas medicinais. Os europeus entenderam muito bem que fora exatamente isso que ocorria quando juntavam assinaturas em julho de 1914 para impor as limitações de Haia à produção e ao comércio de ópio e afins em todo o mundo. Não é de admirar que o Comitê procurava minimizar aquele deprimente relatório americano. *-*-*

Notíciários da estação canadense CTV são menos deprimentes que os dos EUA.(link) Mas deu na vista uma promessa inglesa de proibir cigarro às pessoas nascidas após a crise de 2008.(link) Sou contra o tabagismo, mas relendo a obra do Dr Lewin de 1924, consta que o último imperador da dinastia Ming proibiu fumar tabaco. Não demorou muito uma epidemia de dependência do ópio espraiar pela China.  Também sou contra drogas da dormideira e da coação -- que no fim das contas, sempre depende da violência da lei. A obra "Phantastica" desse Lewin, Médico alemão e primeiro a isolar a mescalina aparece em italiano na Estante Virtual. Apesar de erros da época, a reedição americana de 1998 se esgotou, mas exemplar talvez se encontra pelo bookfinder.com


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 Quer saber a causa do Crash de 1929 e da Depressão da década de 1930? Leia.

ALeiSeca0619

Para melhorar o seu inglês, nada como a minha polêmica tradução de O Presidente Negro (O Choque das Raças) de Monteiro Lobato: America's Black President 2228. Na Amazon (link)

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